“É diferente de ‘nôs terra’ né? Na nôs terra é muito calor”

2016-02-22

AIPA - Rumos Cruzados divulga testemunhos de mulheres: Francisca Santos tem 44 anos, nasceu em Cabo Verde, na ilha de São Nicolau, mas a emigração do marido trouxe-a para os Açores há 21 anos. Trabalha na pesca como gameleira, ofício que aprendeu com o esposo e que tanto se orgulha. 

A vida nem sempre foi fácil, mas nunca lhe tirou o sorriso contagiante. Conta-nos a sua história com o crioulo cabo-verdiano ainda bem vincado e explica-nos que fala pouco português.Tem três filhos, dois já nascidos nos Açores. A filha mais velha acompanhou-a na sua vinda para cá no dia 2 de junho de 1994, data que nunca esquece. Vieram ao encontro do marido que na altura estava a trabalhar na ilha.
No início a adaptação não foi fácil e as saudades eram muitas. “Pronto é aquela coisa agente deixou a família. No fim do ano, ligávamos para Cabo Verde e chorávamos por causa das nossas mães. Mas depois uma pessoa vai acostumando, tava com o meu marido e a família vai crescendo. Olha habituei-me”, conta. 
Questionada sobre o clima, responde que é muito frio. “É diferente de ‘nôs terra’ né? Na ‘nôs terra’ é muito calor”, diz em bom crioulo.
Em relação aos açorianos, diz que fez muitos amigos. “Eu não tenho mal que falar. Dei-me muito bem com eles, estão sempre na brincadeira e são um espetáculo para mim”, refere. 
Quando chegou aos Açores, era o marido que com a vida de pesca trazia o sustento para casa. “Ele ensinou-me algumas coisas e eu não estou arrependida”, afirma.
Com as adversidades da vida inicia a sua atividade na pesca. Francisca conta que começa a trabalhar como gameleira em 2002, ano em que o marido faleceu. “Ele faleceu em junho e eu comecei a trabalhar em agosto. Tinha que criar os meus filhos e na altura eu tinha um filho bebé. Então, eu tinha de trabalhar para os sustentar”, explica. 
Já o seu pai era pescador, mas em Cabo Verde nunca trabalhou nesta área e nunca pensou que algum dia tivesse que trabalhar. “Eu faço as gamelas. Gosto do que faço, é o trabalho que eu sei fazer e por isso eu tenho orgulho”, diz. 
Quisemos saber se Francisca tem outra profissão de sonho. “Não sei ler, nem escrever, não tenho escola para fazer outra coisa. Então, eu tenho que servir dali. Agente trabalha para desenrascar a nossa vida”, responde.
Conta-nos, porém, que a vida de pesca não é fácil. “Ora tem mau tempo e não ganhámos nada. Não tem como pagar as despesas. Isso é mais terrível. Mas, pronto agente vai se desenrascando”, refere. 
Esta cabo-verdiana sabe que são poucas as mulheres que trabalham na pesca e diz que há ainda quem se admire quando diz qual é a sua profissão. “Eu conheço pescadores que trabalham na mesma área que eu e ficam admirados. Eles dizem que não gostam que as suas mulheres trabalhem nessa vida. Eu gosto, é trabalho na mesma”, relata sem esconder o sorriso. 
Falámos de Cabo Verde e Francisca diz que gostava de regressar para ir de férias e ver a mãe que já tem 83 anos. “É a minha terra, mas é para ir de férias. Sabes, os meus filhos estão cá e eu não quero deixá-los”.
E está feliz aqui? “Estou. Vai-se fazendo cada dia devagarinho. Eu tenho trabalho, amigos, tenho saúde, os meus filhos têm saúde. É o mais importante”, termina.
 
Publicado em AIPA Rumos Cruzados, Açoriano Oriental, 28 de Janeiro 2016

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